Guardei. Guardei não, o escondi.
Disse que era pra seu próprio bem, para protegê-lo. Mas,
sobretudo, era para proteger-me das desventuras a que me sujeitaria se ele
escolhesse me acompanhar.
Ele relutou. Prometeu ficar quieto. Jurou-me que se comportaria,
que não nos faria mais mal. Mas quem poderia confiar?
Não, dessa vez não teria o privilégio da escolha. Sendo
assim, o pus carinhosamente, como mãe que põe um filho no berço, no fundo de
uma caixa dourada e lacrei.
No começo esbravejou, sofreu, porém, ignorado, emudeceu,
como quem acaba se resignando a seu destino.
Hoje, não sei bem porque, (talvez saudade de ouvi-lo... quem
sabe?) lembrei-me dele. Parti para buscá-lo, contudo, parei... Onde era mesmo
que o tinha guardado?
Procurei e procurei em vão, pois por mais que o buscasse,
mas escondido ele parecia ficar. Eu, na ânsia de afastá-lo das vistas de todos
e, principalmente, todos de sua vista, o guardei tão bem guardado que seu
paradeiro é agora um mistério também pra mim.
Mas quem sabe um oportunista o tenha furtado, seduzido por
seu depósito reluzente? Ou quem sabe ele só tenha se acostumado ao cárcere e já
não lhe interesse o mundo de fora?
Não... Eu que o perdi.
Continuo a procurar, na certeza que vou encontrá-lo quando
menos esperar.
Um dia, certamente, reencontro meu coração.